30 de março de 2007


Florianópolis: 281 anos de pequenas estórias




Florianópolis, 17 de março de 2007. Nas calçadas, o conjunto: a agonia na latinha à espera da caridade entre os passos apressados e, por vezes, despercebidos. Entre prédios antigos e construções mais recentes, muitas janelas instigam os olhares de quem está alguns andares acima; não raro, podem-se observar pessoas tomadas pela curiosidade voyeurista com seus olhares predestinados à análise dos caminhos alheios. Caminhar pelo centro da cidade é aguçar os sentidos, ver o não visto, discernir a calmaria do canto de um bem-te-vi entre o estardalhaço do som urbano. Em meio a tantos paradoxos, a manhã de um sábado se expressa. O fato: o tempo.

Antes o mar, hoje a civilização. O aterro soterrou o charme do mar que batia no mercado público e no prédio da alfândega. Pelas ruas Deodoro, Trajano, Jerônimo Coelho, milhares de pessoas descem em direção ao largo da Alfândega, ao Mercado Público, ao Camelódromo, ou de onde mais for possível chegar até ali. Todo o dia, dia e noite. Será que dá tempo de pegar o próximo ônibus?

Cinco minutos sentados à mesa de plástico disposta no calçadão do Mercado Público são: um senhor que atravessa o Largo da Alfândega carregando a arte, um quadro em suas mãos. Som de fundo: “Paranauê, Paranauê, Paraná”; os capoeiristas cumprem sua dança, atemporais. Quem quer apreciar, pára. Quem não quer, continua no ritmo desenfreado dos passos. A buzina do vendedor de algodão doce, o som das flautas dos peruanos, o samba nos alto-falantes do mercado, o vaneirão nas lojas de eletrodomésticos e os burburinhos de milhares de pessoas que circulam ali, formam uma orquestra totalmente desconexa. A desordem sonora ilustra a vida, sinestésica. Além dos sons os cheiros. No Mercado, os peixes, a cerveja no bar; em um lado do prédio da Alfândega, os embutidos, as frutas, os biscoitos; do outro, o fedor de esgoto que sobe pelos bueiros.

Um menino brinca com uma bola presa a um elástico; a bola vai-e-vem, é amarela. O moço dos olhos azuis acompanha a mãe, curvado, guiando-a: a mão direita apoiada no ombro esquerdo da senhora de cabelos poucos, brancos e de tão baixa estatura. O turista carrega prancha. Os homens bebem e conversam em outra mesa. Paredes descascadas, bares, mercearias, loja de presentes, papelaria, roupas: o Mercado é Público para todos os públicos. O bater das asas dos pombos levanta as migalhas de pão e a sujeira que outrora foi varrida pela moça funcionária da Comcap. Os atos da vida e a vida entre atos. “Paranauê, Paranauê, Paraná”.
Tem feirinha na praça! Entre tantos tipos de produtos artesanais, o chileno Joseph vende artigos hippies feitos em couro por ele e pelos filhos. Simpatia estampada no sorriso que não demora a aparecer, ele conta que saiu do Chile em 1981 por causa da ditadura. “Nunca mais voltei pra lá”, falou Joseph.

Pelas ruas, as placas dizem “Esmola não dá dignidade, ajude a criar oportunidade”. No chafariz, a dignidade se esvai como as gotas da água que jorram. A indiazinha triste, coberta por um manto sente o cheiro da pipoca despertar-lhe o estômago. O cachorro fica observando as pessoas na rua, procurando um olhar que cruze com o dele. O animal já desistiu da menina. Sabe que talvez ele ainda tenha mais a oferecer a ela do que o contrário.

“Aqui tem um chorinho”, diz o vendedor de caldo de cana do Mercado, completando o copo. Os olhos de um senhor pobre brilham depois do gesto cordial: um garoto pagou-lhe uma garapa. Depois disso, apenas seguiu seu caminho. O mesmo caminho em que cruzam tantas estórias. A alguns metros dali, a barbearia do Seu Vargas, na Jerônimo Coelho, permanece há 46 anos com freguesia fiel. “Sou aposentado, mas sem o trabalho eu não vivo”, contou Waldir Vargas. Num espaço apertado, sentado a um degrau, ele já não pode ouvir tão bem, mas não se cansa de observar o movimento. “Minha vida faz parte disso”, exclamou.

Arielli Guedes Secco
Samuel da Silva Nunes

21 de março de 2007

Fragmentos do Cotidiano

Lajotas brancas, pretas, paralelepípedos, pedras de rio. É heterogêneo o pavimento do centro de Florianópolis. Há o bairro Centro, que corresponde a uma grande área da cidade. Refiro-me, contudo, ao centro da cidade, onde tudo é comentado, o comércio é forte e o vaivém interminável. No Rio de Janeiro, o centro é de um calor insuportável e guarda um punhado de prédios imponentes, como o Teatro Municipal ou a Biblioteca Nacional.

Ao contrário do Rio de Janeiro, o centro de Florianópolis é pequenino, o mais aconchegante que conheço. Sua maior construção é a Catedral Municipal, erigida por volta de 1700. No largo da Catedral, existem cinco telefones públicos, um relógio que marca a temperatura e 21 mesas de xadrez. Estas são devidamente ocupadas por assíduos jogadores, não importando a hora do dia. Seja jogando xadrez, dominó ou canastra, sempre haverá alguém ali. Do lado, um pequeno espaço, que originalmente funcionava como ponto de informações ao turista, e hoje é um posto da polícia militar. Junto à construção, uma dúzia de sem-teto fez do local a sua casa. Apesar da placa colocada pela prefeitura, com os dizeres: “A rua não é um local digno para se dormir”, eles têm papelões como cama; e cobertas que amarradas em uma grade aqui e outra ali formam verdadeiras “suítes privativas”.

Na frente da Catedral, pombos comem e se proliferam. Antigamente eram ariscos, contudo a urbanização os domesticou. Em grande número, tornaram-se um problema de saúde pois são os hospedeiros preferidos por piolhos. Constantemente, a ave columbídea se alimenta do milho jogado por transeuntes. A maior parte deste milho provém dos coloridos carrinhos de pipoca, em cuja lateral lê-se “Pipomídia – anuncie aqui”. Dezessete pipoqueiros ocupam diversas ruas do centro, revezando-se em diferentes logradouros Juntos, explica Seu Joaquim – presidente da Associação de Pipoqueiros e Vendedores de Milho de Florianópolis – eles pleiteiam melhorias para a classe, conseguindo, inclusive, a redução na taxa do alvará.

Dentre os muitos personagens do centro da capital, a qualquer momento você pode se deparar com um sujeito se espreitando entre lixeiras e postes; de roupa vermelha, capa verde e chapelão com os dizeres: “Lampião Maluco”. Ou então com um ser de quase dois metros de altura, mini blusa, cabelo verde e chapéu com chifres. Edson Antonio ganha a vida com um mega fone, fazendo propaganda desde políticos até lojas populares. Já passou pelo estado todo e, atualmente, pode ser visto na frente da Catedral.


O balcão do Bob’s está cheio. Silvia, a moça do café, não sabe precisar quantos são vendidos por dia, mas garanta ser bastante. Os florianopolitanos tomam mais café pela manhã do que à tarde, e preferem o expresso ao simples. O local é ponto de encontro de diversos estilos, que vão de adolescentes emos a senhores que discutem política. O Bob’s já foi palco de muitas situações inusitadas, explica Silvia, como comemorações de reveillon com direito a espumante e Monte Cristo Mini. Além de ponto de encontro, a lanchonete acaba servindo de banheiro para os habituès – mesmo não consumindo nem mesmo o tradicional café expresso.

Das mesas externas do Bob’s vê-se o belo jardim do Museu Cruz e Souza, que após reformas, fica aberto ao público. Para entrar no Museu, contudo, é preciso pagar R$ 2. Estudantes não pagam meia – entrada. Antigo Palácio do Governo, hoje o local abriga um pouco do passado do município. Para não arranhar o assoalho os visitantes são obrigados a calçar enormes pantufas cinzas. Na abóbada central os nomes dos 28 municípios existentes na época.

Perto dali, um senhor de pele escura e bigode grisalho tem seu escritório. É o seu Lidomir Moraes, amolador de facas. Seu Miro, como é conhecido, veio do Porto Alegre há 20 anos. E na bagagem, apenas a bicicleta de amolar – seu instrumento de trabalho. Quando chegou existiam apenas dois amoladores em Florianópolis, hoje são seis. Trabalha das 7:30h às 17:30h. Cerca de cem peças são afiadas por dia, entre facas, alicates e tesouras. A renda do trabalho lhe permitiu trocar as passagens de ônibus por bilhetes aéreos.

Perto das seis da tarde, o movimento se intensifica; pessoas saem do trabalho, estudantes do colégio. A rua fica tumultuada. As lojas fecham às 19h. Com a noite, o vaivém cai, restam poucas pessoas, na maioria estudantes do período noturno. Depois das 23h, a cidade adormece. Da balbúrdia que se ouve durante o dia, resta apenas o murmúrio do mar.
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