29 de dezembro de 2008

Por um jornalismo mais rock n' roll



Django Reinhardt - Swing



Estamos no meio do porre das comemorações de final de ano...

Em breve, voltaremos com a programação normal.

Aguardem.

Novidades para 2009

23 de dezembro de 2008



22 de dezembro de 2008



ponte que vai pro continente
FLN

18 de dezembro de 2008

Após um intrincado semestre, finalmente volto à fotografia. Quase três meses, muita ocupação, poeira na lente. O dia ajuda, tem sol e o centro está movimentado. Com certeza acabo o filme de 36, apenas com 10 já batidas. Quase havia esquecido o prazer de andar a toa pela cidade, coa bolsa a tiracolo, o infindável trocar de lentes para cada instantêneo. Atenção a tudo, os detalhes que escondem boas fotos, os momentos que podem ser mais rápidos que o clic. Enquanto uns passam engravatados, cujas profissões devem ser mais "sérias" que a minha, apenas uma coisa me passa pela cabeça: ainda bem que sou fotógrafo.
Algumas já estão prontas na minha cabeça faz tempo. O prédio da secretaria na esquina da tenente silveira com deodoro; o enorme grafite na ponte. Finalmente no gravados no iso 200. Sim, acho que foi uma saída proveitosa. Amanhã pego o cd coas fotos escaneadas, espero que fique bom.

9 de dezembro de 2008

Estava mais tranqüilo. Ainda confuso, porém, até mais do que pretendia. Chegou em casa antes do normal, não sabia quem devia ter encontrado, dúvidas que procurava se distanciar a cada gole. Normal, sua vida seria assim dali para frente. Dizem que jornalistas fundamentalmente bebem e fumam em quantidades consideráveis. Precisava se ajustar a profissão. O computador tinha uma série de páginas abertas, as quais não olhava nenhuma direito. O cinzeiro vermelho comprado na tok&stock de são paulo aos poucos era tomado pelas cinzas. A garrafa de black label aberta três dias antes quase cheia. Não se acostumara com tal bebida. Ainda assim, vagarosamente saboreava ou quase engasgava com o destilado. Não importa.

Pensava no búfalo da noite, filme mexicano que vira no outro final de semana. Não estava com ela, mas seria bom. A película quiçá encaixava-se bem com o que passava, e tinha um quê da vitalidade dos jovens. Um triângulo amoroso entre dois melhores amigos e uma meninna que acaba se envolvendo com ambos. O protagonista, além dela, tem outra na qual se refugia, talvez numa mistura de incerteza e alívio.

"Podia muito bem participar dessa história", pensa. Os cortes em seus braços já não incomodavam tanto, apenas completavam seu estilo, pensava. Sentado no sofá olhava a perna, fechada com motivos orientais, nas orelhas apenas o espaço vazio pouco menor que uma tampa de garrafa de cerveja. Os pés descalços arrastados no sofá, chico cantando as vitrines, gostava da canção. Meias encardidas do dia exaustivo agora encostam-se na parede, à espera de quem as leva ao tanque.

Foi até a janela, acendeu outro cigarro. Ficava a olhar a rua por minutos inunterruptos, acometido por uma espécie de transe que apenas a janela do 11º causava. Por que não, não... esvaiam-se idéias sem conclusões lúcidas. Deu outro gole no uísque, tossiu. Foda-se. Tenta escrever, não consegue. Ela não lhe sai da cabeça, era o que mais queria. Queria sossego, aproveitar cada coisa a seu tempo. A chuva que começa lentamente a cair tranquiliza um pouco. Pensa em ligar, talvez tenha medo. Impossível adivinhar o que acontecerá, o que de certa forma piora as coisas. Se ao menos agisse de outra forma. Na verdade, pensa, apenas foge do que mais tem vontade. O que não faz o menor sentido, mas quem disse que as ações de cada um precisam de sentido? As suas tinham sentido enquanto representavam a realidade que vivia. Lembrava do filme, podia sim ser diferente.

Sentou à frente do computador, num misto de inspiração e fúria, alguma coisa útil sabia fazer, pelo menos isso. Não beberia no gargalo, embora quisesse apenas pela sensação de quebrar alguma convenção. Idiota, pensava, para que. Acendeu outro cigarro, lembrou da viagem, da carona, ela sequer passava por sua cabeça. As coisas mudam quando menos se espera. Calçou o vans slip-on vindo de madri, catou uma camiseta. Nem precisaria passar no posto para abastecer o carro.

8 de dezembro de 2008





Florianópolis

4 de dezembro de 2008

Esporte, saúde e administração

Imagine um escritório de uma multinacional. Executivos de terno e gravata, ambiente sóbrio, pessoas trabalhando concentradas em suas “ilhas”, como se estivessem em um universo paralelo. Todos só se conversam por e-mail ou em reuniões demoradas em salas abafadas, quando o ar-condicionado está com defeito. Agora, esqueça isso e pense em um maratonista. Ao ar-livre, correndo e se preocupando apenas em terminar a prova. À sua volta, apenas prédios, paisagens e pessoas. À primeira vista, são coisas completamente distintas, certo? Errado. Leia esta história e entenda o porquê.

Desde os seis anos de idade, José Roberto Barros pratica esportes. Só de judô, foram 20 anos, nos quais disputou diversos campeonatos, como jogos abertos em São Paulo, estado onde nasceu, e até uma seletiva para os jogos pan-americanos. Pouco depois de terminar o Ensino Médio, mudou-se para Florianópolis, onde cursou Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Santa Catarina. Formou-se aos 22 anos.

Porém, a correria da vida de um recém-formado o fez deixar um pouco os esportes em segundo plano. Dos 22 aos 32 anos, praticamente deixou de fazer atividades físicas. Em vez de pesos de halteres, carregou consigo 20 quilos a mais de massa corporal.

- Fiquei relaxado durante esse tempo. Só voltei a fazer exercícios depois de um problema no nervo ciático, em 2001, quando os médicos me proibiram de praticar qualquer atividade física – conta ele que teve que esperar o fim do tratamento para voltar às atividades.

Depois do problema, fazer exercícios apenas pela prática já não importavam. Ele percebeu que era necessário diminuir seu peso. Até o esporte a ser praticado mudou. Do judô, José Roberto foi às ruas, ou melhor, às corridas de rua. Com planejamento, decidiu participar da tradicional Corrida de São Silvestre, em 2002. Entrou em uma rígida rotina de treinamentos, correu e terminou a prova, que tem cerca de 15 km de extensão.

O gosto pelas corridas e o bom resultado dos treinamentos no que tange à sua forma física o fizeram planejar caminhos mais longos. Aumentou o ritmo de treinamento e, em 2004, correu a primeira maratona. De lá para cá, já foram cinco. No mês de novembro passado, correu a Maratona de Nova Iorque e terminou na 5300ª colocação no geral. Contudo, pela sua idade, 37 anos, correu na categoria mais forte, a mesma do vencedor, o brasileiro Marílson dos Santos. Dentre os corredores brasileiros, ele foi o 36º.

Só nessas provas, ele já percorreu quase 211 km. Seu objetivo é correr o equivalente a uma volta na linha do Equador, cerca de 45 mil km, até os 55 anos de idade. Segundo suas contas, ainda faltam 30 mil.

Mas para conseguir todos esses objetivos é necessário muito planejamento. Principalmente pelo fato de o professor conciliar a vida de casado, a de mestre em sala de aula, a de palestrante e, a de estudante – terminou o doutorado em engenharia de produção há poucos anos – e a de atleta. Tudo ao mesmo tempo, quase sem descanso. Para correr a Maratona de Nova Iorque, foram 1700 km percorridos ao longo deste ano. Isso significa, três pares de tênis, cada um custando cerca de R$ 500, e que duram por volta de 500 km cada um. Além disso, no ano passado teve uma lesão no quadril, que custou, além dos treinamentos, um tratamento com médico e fisioterapia. Em suas contas, cada quilômetro de corrida custa R$ 3.

Todos esses cálculos e metas são levados por ele à sala de aula, na universidade e nas palestras que profere em colégios de ensino médio, junto ao programa Unisul.Futuro, que o auxiliou com a parte de alimentação na corrida em Nova Iorque. Em seu computador, cada um dos treinamentos está guardado, com números que mostram desde a distância percorrida em cada dia até o gasto calórico e batimentos cardíacos em cada trecho.

Na Unisul Business School, José Roberto leciona a disciplina de Educação ao Ar-Livre. Nela, ele mostra aos alunos que o planejamento necessário para as atividades que propõe – como provas de mountain bike, por exemplo – não difere em quase nada do mesmo planejamento necessário para se gerenciar uma empresa. Segundo o professor, nessas atividades, os acadêmicos desenvolvem habilidades de relacionamento e gerenciamento que são fundamentais para o bom funcionamento de uma empresa.

O mesmo ocorre nas palestras da Unisul.Futuro. No programa direcionado a jovens em período de prestar o vestibular, José Roberto desmistifica a dificuldade da aprovação.

- Com a minha experiência nessas maratonas mostro que o difícil não é passar no vestibular. O problema é planejar como serão os estudos ao longo do ano e a preparação. Isso é o que difere aqueles que serão aprovados dos que não serão – avalia José Roberto.

2 de dezembro de 2008

O restaurante estava mais cheio que o habitual, talvez por chegar quase meio dia e trinta, quando normalmente almoçava trinta minutos antes. Tudo bem, pouca fila. Não, o cheiro da comida não lhe chama atenção, seu olfato percebe algo muito mais sutil. Olha para os lados, para a porta, não a vê. Reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar. Pouco mais de dois meses, era normal que estivesse daquele jeito. Sua cabeça deveria estar pregando uma peça, além do mais perfumes não são exclusividade dela. Aquele, contudo, era sim exclusivo, embora só os dois soubessem.
Lembrava de cada passo, saíra cedo do pequeno hotel à rue pierre charron. Estava a alguns quarteirões da champs-elysèes, caminhava sem preocupações enquanto um manso sol aos poucos aparecia. Tiveram uma noite ótima, sempre achava que tê-la em seus braços era a melhor sensação do mundo, mas ali tudo parecia um pouco mais vibrante. A excepcional janta, sua pele clara coberta apenas pela camisa xadrez que sempre usava para dormir; o braço tatuado movendo-se furtivamente enquanto ela andava pelo quarto de paredes escuras e lustre majestoso. Mesmo o sabor do château lafite, degustado na varanda em um pequeno sofá verde-oliva centenário era melhor se junto ao dela.
Talvez fosse o ar da cidade, sempre ouvira histórias de paris. Encantava-se com a simplicidade e sensibilidade dos romances de truffaut, certamente ali os dois poderiam ser personagens de alguma de suas tramas. O comércio já estava aberto, pessoas para lá e para cá, às quais aquela paisagem era completamente trivial. Para ele não. Entrou em algumas lojas, pelo menos seu francês arrastado era bem compreendido. A loja de perfumes começou a ganhá-lo apenas pela vitrina, com antigas luminárias à óleo. Foi mais por curiosidade que adentrou, logo recepcionado por uma moça de pouco mais de 24 anos. Explicou que apenas conhecia a loja, que era brasileiro, que estava comemorando dois anos de namoro etc. A vendedora era de lens, estudava moda na capital. Também era-lhe muito atraente. Logo pegou um frasco de amostra, "é o que uso", borrifando duas sprayzadas nele.
Foi até uma estante, duma pequena caixa tirou um pequeno vidro azul, cujo formato lembrava a lâmina de uma faca; preso à tampa um L estilisado cravejado de pequenos brilhantes. "Comme un doux baiser intime et charnel...". Sua voz, seu cheiro, tudo naquele momento foi-lhe muito próximo, quiçá até demais. Não pensou, apenas pediu que ela fizesse um belo embrulho.
Saiu ainda um pouco entorpecido da loja, parou num dos cafés da famosa avenida e sentou na mesa da rua. Admirava o laço, o papel azulado, como se fosse uma obra de arte. Pediu um café com conhaque e canela, esticou as pernas e olhou o céu. Era um bom presente.

1 de dezembro de 2008

O encontro das águas

(para ser lido num dia de chuva)

Há dias, o sol insistia em não aparecer. A chuva já havia umedecido todos os grãos de areia e os saleiros pareciam potes de água salobra. Com um tempo desses, ela não era a única a saber que a combinação perfeita seria um livro e um cobertor em frente à lareira. A maior parte de seus amigos com certeza estava a fazer o mesmo. E ela não resistiu. Chegou à estante e, apenas na sorte, tirou um livro qualquer.

Shakespeare, Romeu e Julieta. Um clássico. E por que não? Eram as palavras do mestre do século 17 que haveriam de embalar a tarde de tempo fechado. Diferente dos últimos dias, nesse, ainda não chovera. Apenas o frio persistia. Preparou um chá de limão e deitou envolta com as cobertas pesadas.

A história triste do casal mais famoso da literatura, naquele dia, a comoveu. Enfim, a chuva chegara. Não era forte, apenas uma garoa. Nem vento havia. Em meio ao enredo do livro, ela não conteve as lágrimas e uma delas caiu no mesmo instante em que uma gota de chuva bateu e grudou na vidraça.

Seriam apenas duas gotas: uma lágrima e uma de chuva. Água doce e salgada, separadas pela janela de vidro. Assim como o jovem Montecchio jamais poderia ficar junto à bela senhorita Capuleto, como a água e o óleo, as duas gotas permaneciam inertes em seus lugares.

Ela percebeu as duas gotas. Em sua mente imaginou um amor à primeira vista entre aquelas duas pequenas porções líqüidas. Poderia uma lágrima se apaixonar por uma gota de chuva? Ela observou as duas, atentamente. A janela, não poderia abrir, pois a gota de chuva se moveria e talvez sumisse. Mas ela podia controlar o criado-mudo, onde a lágrima ainda persistia sem evaporar.

Incrivelmente, a cada movimento que levava a lágrima mais próxima da janela, a gota de chuva também se movia. “Querem se encontrar”, pensou ela. Ao contrário do usual, ao se moverem, nem a lágrima e nem a gota d’água deixavam qualquer rastro nos centímetros que percorriam. Ela começou a achar que a brincadeira de outrora tinha se tornado algo sério.

Então, podem ter se apaixonado. Mas como aproximar a lágrima da chuva? Sim, numerosas canções e poemas já o fizeram. Entretanto, fisicamente a tarefa parecia impossível. Ela pensou bastante, mas não chegava a uma saída. Recolher as duas e colocar num mesmo recipiente poderia ser fatal para uma. E se a lágrima caísse no tapete ou a gota de chuva rolasse de vez pela janela? Queriam se unir, mas parecia impossível.

A distância entre a janela e o móvel tinha cerca de um metro. Além disso, o vidro impedia o contato com a gota d’água. Da mesma forma, o móvel de madeira poderia, em alguns segundos, absorver aquela lágrima, que insistia em permanecer sobre ele.

Ela arriscou. Lentamente, abriu a pesada janela de madeira. Cada milímetro erguido poderia ser fatal para aquela gotinha de chuva. Ela nunca abrira aquela vidraça com tanto cuidado. Em sua mente, os dois fragmentos líqüidos queriam realmente se encontrar. Romeu e Julieta tomaram conta de seus neurônios que, naquele momento, só queriam ajudar a que este possível “casal” se unisse.

A janela estava aberta, contudo ainda não era possível unir as gotas. Ela desistiu. Mas a brisa fria que entrava pela janela lhe era agradável. Resolveu deixá-la aberta. Deitou. Retomou a leitura. Caiu em si e percebeu que a brincadeira havia se tornado séria demais. Teria enlouquecido? Talvez não. Provavelmente, a magia das letras a hipnotizou por aqueles instantes. Esqueceu tudo e retomou sua vida. Os dias passariam e ela jamais lembraria daquele dia novamente.

Porém, ao seu lado, a física resolvia as coisas. Incrivelmente, as duas gotas começaram a evaporar ao mesmo tempo. Cada uma das moléculas, de uma gota e da outra, se misturavam lentamente com o ar. Se não era possível se encontrarem na “vida”, que assim seja na sua “morte”. Romeu e Julieta estavam juntos no éter. Ela só se deu conta quando terminou a última página do livro.

30 de novembro de 2008

O eco da contemporaneidade

Psicóloga, antropóloga e sociólogo falam sobre a possível relação entre o modo de viver em nossa sociedade e desequilíbrios de comportamento como a compulsividade



A tecnologia sempre evolui e traz cada vez mais praticidade ao ser humano. Hoje, o computador e a internet possibilitam a realização de tarefas em poucos minutos, transmitindo através de cliques ações que antes dependiam de idas ao supermercado ou ao banco. Compras, pagamento de contas, transições bancárias e até reuniões de trabalho podem ser feitas on-line. As chamadas redes de relacionamento mostram que inclusive a aproximação social das pessoas é priorizada quando acontece no meio virtual: o estudo Digital World (State of the Internet) avalia que 530 milhões de pessoas em todo o mundo visitam Orkut, MySpace, Facebook etc. Preocupamo-nos em saber quais são os novos e-mails na caixa de entrada do correio eletrônico, mas não nos empenhamos em dizer bom dia ao desconhecido que está no mesmo ponto de ônibus nas primeiras horas da manhã à caminho do trabalho.

Duas simples observações que podemos fazer em qualquer trajeto na cidade nos permitem perceber quão os hábitos urbanos tornam-se cada vez mais fechados. A primeira: a grande quantidade de automóveis que circula nas ruas com apenas uma pessoa em seu interior. Com o medo ocasionado pela violência, dar carona tem se tornado um fato pouco freqüente. A possibilidade de financiamentos e o transporte público que não corresponde às necessidades do dia-a-dia favorecem a proliferação de veículos particulares nas vias. O segundo hábito que podemos facilmente constatar tem relação com o número de pessoas que andam pelas ruas usando fones de ouvido, com a atenção voltada à música alta, bloqueando a percepção do que acontece ao redor. Essas duas observações remetem à individualização dos costumes sociais, fazendo com que o espaço urbano seja um lugar de convívio sem interação entre os seres.

Analisar o individualismo como propulsor do desencadeamento de sintomas psicológicos no comportamento humano consiste em uma relação perfeitamente possível na visão de psicólogos, antropólogos e sociólogos. A compulsão, por exemplo, pode estar ligada ao descontrole dos impulsos de compras, de alimentação, de diversão e de sexo. A sociedade em que estamos inseridos suscita atitudes dessa natureza, mas a professora e psicóloga Maria do Rosário Stotz lembra: “Freud já estudava isso no início do século passado. O sintoma não é novidade”. Em meados de 1900, portanto, a compulsão já existia. As mudanças constatadas por estudiosos e especialistas estão apenas na freqüência e no tipo de ação que desencadeiam a compulsividade. “Hoje, existe uma alteração lógica do tempo, tudo é mais rápido imaginariamente”, explica Maria ao falar sobre as condições da atualidade que propiciam o diagnóstico.

É fundamental o esclarecimento das diferenças entre o significado de compulsão para o senso comum e a compulsividade como patologia psicológica. O termo “compulsivo” é usualmente atribuído a pessoas que, por exemplo, abusam nas compras ou no consumo de alimentos, sem chegarem a condições extremas destes atos. Na interpretação da psicologia, porém, a compulsão consiste em uma doença. Neste caso, a intensidade e a causa são um pouco diferentes.

A compulsão trata-se de uma alteração da vontade - considerada uma função psíquica natural do ser humano. De acordo com Maria do Rosário, são quatro os estágios por que passa toda ação: primeiro, temos um desejo, uma intenção ou um propósito; depois, decidimos por satisfazê-lo ou não, ou seja, passamos pela etapa da deliberação com uma ponderação consciente dos motivos e conseqüências; a penúltima etapa é a da decisão; por fim, temos a execução, quando surgem as atitudes necessárias à consumação dos propósitos. Ao contrário do impulsivo, que pula as etapas de deliberação e decisão, um compulsivo passa por todas elas. O fato é que, na terceira etapa, o indivíduo com o sintoma da compulsão decide por não executar o ato e, ainda assim, não consegue responder à sua decisão e faz o que incoscientemente deseja.

A repetição e a freqüência de atos mentais ou de ações propriamente ditas caracterizam a doença. “A compulsão é um sintoma e o sintoma sempre serve para manter o organismo em equilíbrio, aliviando uma tensão psíquica e perseverando o comportamento”, detalha Rosário. Geralmente, o compulsivo evita falar sobre a doença e não gosta de demonstrar as atitudes em público.

Enquanto caminha, a garota precisa parar sucessivamente para encostar suas mãos nos lugares e objetos por que passa. Outra necessidade é a de pisar sempre no centro de cerâmicas ou lajotas no chão, sem atingir as linhas. Um rapaz verifica várias vezes se trancou a porta do carro, se tudo do que precisa está na mochila, se desligou o ferro. Não consegue manter a calma quando não repete a ação, no mínimo, cinco vezes em um curto espaço de tempo. Isso os perturba, apesar do breve alívio decorrente da ação necessária. A psicóloga Mara Regina de Souza conta que o compulsivo se exclui e individualiza seus atos. Para ela, a doença hoje em dia é mais freqüente e isso é resultado do modo de viver contemporâneo. “Vivemos em uma sociedade que cultua o consumo, em que tudo é rápido. As pessoas querem acompanhar isso e muitas vezes não podem”, detalha Mara.

Na visão da antropologia e da sociologia, a crítica aos hábitos urbanos atuais não diverge deste argumento. A professora Sônia Maluf, antropóloga e pesquisadora da área de saúde mental e cultura contemporânea, aponta a perda dos espaços de sociabilidade como a principal causa de manifestações comportamentais como a compulsividade. “O que se percebe é que vivemos uma cultura de excessos, consumo, informação. O regime capitalista cria dispositivos de dissociabilização”, comenta Sônia.

A antropóloga utiliza o exemplo dos shoppings para ilustrar sua fala, lembrando que antigamente o costume de encontros e conversas nas praças das cidades era uma tradição social. Hoje, a praça tem vitrines, é cercada pelo consumo e quem circula por ela não interage com nada além dos produtos à venda. Isso gera uma incompletude no ser e, conseqüentemente, uma necessidade de compensação que ele muitas vezes encontra em atos como a compulsão. A diferença do que propõe a psicologia, no entanto, está no fato de que a antropologia compreende a enfermidade como um fenômeno resultante de uma manifestação conjunta; ou seja, a compulsão não é entendida como algo individualizado e patológico, mas sim como um acontecimento ligado ao esvaziamento coletivo, uma conseqüência da angústia social.

A sociologia também critica a sociedade contemporânea. Felipe Jovani, professor e sociólogo, cita a mídia como motivadora da reversão comportamental do ser humano. “As pessoas são muitas vezes compelidas a serem compulsivas devido a incessantes propagandas televisivas dirigidas ao consumo”, exemplifica. Felipe compara o grande volume de novidades e atualizações tecnológicas constantes ao estímulo inconsciente ao consumo provocado nas pessoas.

Em comum aos diferentes pontos de vista está a existência da angústia de alguém acometido pela compulsão. Quando uma pessoa passa a causar sofrimento a si e aos indivíduos que com ela convivem, a melhor indicação é a procura de ajuda com tratamentos psicológicos ou alternativos. Vale lembrar que a sociedade não é a única culpada por este tipo de comportamento, mas pode ser um fator que contribui com o incentivo a determinados hábitos que afastam socialmente os seres humanos.

28 de novembro de 2008

Somos problemas sociais

Era para ser um post comemorando o fato de estarmos com tudo pronto para a formatura. Como a Li...! já disse, seremos sempre aspirantes, pois não deixaremos de aprender coisas novas a cada dia de nossa jornada. Contudo, descobri, nesta semana, que eu e todos os meus colegas da oitava fase seremos mais um estorvo na sociedade (e na conta bancária de nossos pais).

O motivo: não somos jornalistas! Não importa termos terminado todas as matérias do curso e só aguardar pela colação que ocorrerá no fim de março. O problema está na burocracia da lei trabalhista. Mesmo que arrumemos vagas de trabalho, sem o registro profissional não seremos contratados.

E o que nos falta para fazer o registro? Precisamos do certificado de colação de grau, que nos será entregue no dia da formatura. Sem isso, não é possível dar entrada no pedido, que deve ser feito na Delegacia Regional do Trabalho.

Antes disso, como diz Alessandra, colega de estágio minha e do Pedro e que está na quarta fase do curso, somos "problemas sociais".

27 de novembro de 2008

A cabeça não se desvencilha dos pensamentos que remetem ao ontem. Ainda é recente demais! E, pelo esforço, esse sorriso, essas lágrimas de alegria e as explosões de felicidade devem ser mastigadas, ainda, por muito tempo! Pensando nisso - e em complementação ao post do Samuka [que acho, sim, pertinente! Nós merecemos!] -, escrevi algumas palavras que me vieram no impulso dessa sensação tão boa. Este blog ganha um temperinho a mais e entra em uma nova etapa a partir de então. Ele nos significa muito e faz parte de todo este processo. Obrigada a todos que contribuíram, de alguma forma, com qualquer pedacinho desta trilha!



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Sem título que caiba



Tensão. Nó na garganta. O corpo não responde às tentativas de sôssego. O tempo passa rápido, aumenta o compasso; o coração inventa de acompanhá-lo e acelera. São quatro meses revertidos em 15 minutos. Ou melhor, mais do que isso: são quatro anos revertidos em 15 minutos. Não, é ainda mais: 21 anos em 15 minutos. Talvez seja por esse motivo que, no ato, os ponteiros parecem não cumprir com sua tarefa de percorrer um quarto do círculo no pulso. As palavras saem descontroladamente, ora tropeçando em gagueiras, ora escorregando em esquecimentos breves. Por fim, os aplausos. Missão cumprida será? Chegam os comentários, as sugestões, alguns elogios, as provocações. Mais uma vez, o tempo faz suas trapaças. A espera é agoniante. Os minutos se desdobram.


É 10.


Opa, tem matemática aqui? 21 anos divididos em (4 vezes 12 meses); subtrai-se (4 vezes 30 dias) e tudo isso equivale a 15 vezes 60 segundos. Acabou? Não. E não há matemática que dê ou faça conta da infinitude. A camisa de jornalista vinha sendo tecida durante o cálculo passado para ter como resultado o vestir para caminhar por ora, sabe-se lá para que onde. Por isso, aspirações continuam. O aprender vem com o sempre.




Aspirantes a jornalistas hoje, amanhã e depois. Agora, nota 10!
Pedro disse que deveríamos publicar isso, mas sou contra. Como a Li...! não está, vou dar essa colher de chá ao pirralho (dois anos mais novo que eu) e enfim falarei disso. Ainda acho que um pouco de humildade seria bom neste momento, mas há uma voz em desacordo com isso.

Sim, nós três fomos premiados com nota 10 nas apresentações de nossas monografias, ocorridas durante esta semana. Por termos obtido nota final superior a 9, nossos trabalhos estarão disponíveis em breve para download na página da biblioteca da Unisul. Informaremos a respeito também.

Os temas apresentados foram:

Arielli: Jornalismo com humor: análise discursiva da versão brasileira do programa televisivo Custe o Que Custar
orientação: Ms. Helena Santos Neto

Pedro: A cobertura do Diário Catarinense sobre a Revolta da Catraca em 2005
orientação: Ms. Marta Scherer

Samuel: Podcast: acontecimento discursivo?
orientação: Ms. Helena Santos Neto

Antes que eu me esqueça, parabéns também a todos os nossos colegas de curso, cujas notas, segundo soubemos até este momento, são muito expressivas também.

23 de novembro de 2008

Engraçado, apesar - ou por causa - de ser fotógrafo, não é meu hábito parar para olhar fotos "de família". Acabo ficando mais preocupado em ensaios ou coisas do tipo, e as que na verdade significam mais para mim ficam um pouco de lado.
Parei para pensar nisso hoje de tarde, enquanto mostrava as fotos da viagem a bh para pai e mãe. No meio do monte de instantâneos eu, meu primo aloprado e a namorada dele comendo fígado com jiló no mercado municipal, ou com minha prima tomando café na travessa. Puta merda, não é ruim lembra isso, mas de certa forma é ruim ver que momentos tão bacanas passaram e hoje resumem-se a boas lembranças. Esse tempo lá foi muito bom para mim, talvez seja por isso.
Os passeios no pátio savassi, jogos no minerão, um boteco melhor que o outro, placas adesivadas, cafés da manhã engraçados e animados, mais uma dezena de coisas; sobretudo estar com pessoas das quais muito gosto. Mas isso é o bom da fotografia, nos remeter a coisas boas, e fazer com que sempre lembremos delas. De certa forma realmente paramos um momento do presente e presevamo-nos para sempre. Não é a toa que ela fez tudo que fez e representou tamanha mudança na vida do homem. Isso é o principal da brincadeira. Ainda bem que sou fotógrafo.

22 de novembro de 2008

Não tem quase ninguém na livraria catarinense. Também, com a chuva que cai ninguém muito certo viria para o centro sábado de manhã. Eu vim. Faz três meses que não pára de chover em florianópolis. Nesse período o sol apareceu em no máximo umas quatro ocasiões. Duas delas com chuva junto. Não fala-se mais "tá chovendo hoje", mas sim "tá chovendo muito/pouco hoje". De qualquer forma, minha competente capa de chuva funcionou até a livraria, onde fui pesquisar um pouco mais sobre tatuagens para minha reportagem. Não lembro direito o nome do livro, mas era da cosac&naif. Feito para adolescentes na verdade, linguagem simples, bem explicativo. Ou seja, me forneceu bastantes informações úteis. Sobretudo para poder dizer que na índia alargadores são símbolo de superioridade espiritual e intelectual. Ainda pondero se passarei para oito milímetros. Indo embora ainda deu tempo de espiar alguns discos, mas nada que chamasse a atenção - ou melhor, que chamasse a atenção e o preço idem. Essa semana volto lá, de repente levo o dvd do los hermanos, está R$ 25.

19 de novembro de 2008

Uma palestra "muito bonitinha"

Chuva, gripe ou afazeres monográficos: nada impediria os aspirantes de estarem presentes em mais uma oportunidade de assistir ao Marcelo Tas.

Às 19h05 descemos do carro depois de muito contar com a sorte para conseguirmos uma vaga próxima à Assembléia. Dentro, as cadeiras vagas não passavam de três dezenas. A penúltima fila não é de todo mal quando você encontra a quantidade ideal de cadeiras para sentar junto aos amigos.

Sem ar condicionado ou ventilação, o clima abafado do auditório não foi obstáculo durante as duas horas de palestra. Marcelo Tas falou sobre tecnologia utilizando situações da própria vida como exemplo. Lá estava, na parede, o garoto que entrou na faculdade de engenharia e acabou contemplado por uma bolsa de jornalismo nos Estados Unidos. Foi na New York University que descobriu o computador ao entrar num andar do prédio da universidade onde nunca havia estado. Assim, teve início a paixão pelas novas possibilidades de comunicação.

Todo conhecimento e toda experiência do âncora central do CQC foram driblados pelo aparelho que comandava a apresentação no computador. "A gente tá sempre aprendendo a mexer!", justificou Tas quando trocou muito rápido as projeções e se atrapalhou ao usar a ferramenta.

Um momento bacana foi a pergunta que instigou a platéia: "Que invenção mais acelerou o conhecimento humano?". Dentre as alternativas, estavam a roda, a eletricidade, o livro, os números e o computador. A única resposta capaz de derrubar a pegadinha da questão foi justamente a que ninguém ousou falar. Tas recordou o episódio do surgimento da imprensa e ressaltou a importância dos livros para a difusão do conhecimento. O detalhe é que as primeiras impressões não tinham páginas numeradas e somente mais tarde, com números, pessoas em diferentes lugares tiveram a possibilidade de estar em lugares diferentes olhando para o mesmo lugar, ou "a mesma tela", nas palavras do palestrante.

De uma forma muito simples, o homem multimídia explicou a invenção do PCM (Pulse Code-Modulation) pelo inglês Alec Reeves, em 1938, e brincou: "ele foi o cara que inventou a pirataria!". Isso porque o PCM é uma atribuição numérica à ondas sonoras, uma espécie de decodificação, que permite a troca e a cópia de arquivos sem perda de informações, tanto em aparelhos eletrônicos como na rede mundial de computadores.

O último conselho de Marcelo Tas foi o "tempo presente". Ele ressaltou que vivemos sempre ansiosos com o que está por vir ou angustiados com o que já foi, esquecendo-nos de que a única ação possível é no agora. Finda a palestra e prontos para seguir o que nos foi aconselhado, os Aspirantes foram em busca de seus objetivos a fim de trocar idéias com o careca mais brilhante e simpático do Brasil.

No primeiro contato, interceptado por seguranças, conseguimos entregar a ele um papel com o endereço deste humilde blog. Depois, já no espaço externo da Assembléia, os quatro meses transformados em 50 páginas da minha monografia (cujo tema contempla o CQC) foram entregues ao Tas enquanto ele entrava no carro num ato encorajado por meu amigo Pedro. Não vou dizer que minha pesquisa está digna de elogios, afinal o tempo é muito curto. Mas...digamos que um dos caras que mais admiro no meio jornalístico está com um texto "bem feitinho" em mãos, apesar do improviso da impressão e dos rabiscos entre as palavras.

Loucura, custe o que custar.



"Beijo, me liga" pra Mari, que esteve com os Aspirantes no evento!




Marcelo Tristão Athayde de Souza parece mesmo cultivar os cabelos dentro da cabeça: aqueles neurônios cabeludos guardam uma inteligência e um carisma de se admirar. Camiseta preta, sem estampa e com mangas compridas; óculos quadrados e com armação grossa, também preta. O assustador professor Tibúrcio, o Telekid, o Ernesto Varela ou o âncora do CQC: Marcelo Tas esteve ontem em Floripa, na Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, ministrando uma palestra sobre criatividade na mídia digital. Faltaram cadeiras e sobraram aplausos.






Post saindo do forno...calma aí!

17 de novembro de 2008

Os trutas do DC



Se não me engano, foi Antônio Conselheiro, lider do grupo de pessoas que participaram do movimento que culminou na Revolta de Canudos, quem previu que o Sertão virará mar.

Bom, se é verdade, eu não sei. Mas se depender do que ocorreu no município de Urubici, no PLANALTO Oeste de Santa Catarina, os moradores daquela região tão devastada pelas secas constantes podem ficar esperançosos.

Como podemos ver nessa imagem, publicada na manhã de hoje pelo Diário Catarinense, os moradores de Urubici trocaram as varas de pesca e as minhocas para pegar trutas nos rios da região pelas tarrafas e barcos de pesca de tainhas.

Não entendeu? Clique na imagem acima e leia na seqüência: manchete --> foto --> legenda.

14 de novembro de 2008

Ainda deitada esticou os dedos e abriu uma fresta na cortina. Sol. Duas semanas que não acordava sem ver o céu cinza. Não reclamava, nem gostava muito de praia mesmo. De qualquer forma, achou ótimo num movimento rápido abrir toda a cortina, deixando a luz do sol aquecer sua pele clara e seus braços riscados. Um vento fresco e revigorante entrava pela fresta na janela, agitando seu top cinza.

Vasculhou o chão à procura das pantufas de urso - presente do irmão - mas só via tênis e meias sujas. Olhou embaixo da cama, por alguma razão elas sempre paravam ali. Passava pouco das oito, sua cabeça ainda doía um pouco. Foi até a cozinha, as garrafas ainda estavam sobre a pia, cinco copos sujos, cinzeiro transbordando. No balcão potinhos com restos amendoins, castanha, batatas fritas prontas, toalha esfarelada. Merda - pensou - bem que aqueles putos podiam ter limpado alguma coisa. Abriu a sala, o dia combinava com algo descontraído. Foi até o som e deu play no disco da Orquestra Imperial.

13 de novembro de 2008

Por um jornalismo mais rock n' roll



Jimi Hendrix - The Wind Cries Mary

Uma pequena homenagem deste singelo blog ao baterista Mitch Mitchell, que morreu ontem, em Portland, nos Estados Unidos, aos 61 anos. Ao lado de Jimi Hendrix e Noel Redding, Mitchell fez parte daquele que, na minha opinião, foi o maior power trio da história do rock, o Jimi Hendrix Experience.

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